Nariz escorrendo, garganta arranhando, corpo moído, tosse que não passa. Nas últimas semanas, quase todo mundo conhece alguém nessa situação, e não é impressão: os vírus respiratórios seguem circulando intensamente no Brasil. Junto com eles, circulam também muitas dúvidas. Isso é gripe ou resfriado? Precisa de antibiótico? Todo mundo deve tomar Tamiflu? Neste texto, explicamos de forma simples o que a ciência sabe sobre essas infecções e o que os dados mais recentes mostram.
O que está circulando agora no Brasil
A Fiocruz acompanha semanalmente os casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), ou seja, as infecções respiratórias graves o suficiente para levar à internação, por meio do InfoGripe. Segundo o boletim divulgado em 8 de outubro de 2026, referente à semana epidemiológica 39:
- Em 2026, já foram notificados mais de 161 mil casos de SRAG no país, e em pouco mais da metade deles (53,7%) foi identificado um vírus respiratório.
- Nas últimas semanas, o rinovírus respondeu pela maior parte dos casos com vírus identificado, seguido pelo vírus sincicial respiratório (VSR).
- Os casos ligados ao rinovírus, ao metapneumovírus e ao Sars-CoV-2 (o vírus da Covid-19) apresentam tendência de aumento, embora a Covid-19 ainda esteja em patamar baixo.
- O VSR e a influenza B estão em queda, e as internações por influenza A seguem estáveis em nível baixo.
- A incidência de SRAG é maior em crianças pequenas, mas a mortalidade é maior a partir dos 65 anos.
Em outras palavras: a temporada mais intensa de gripe já passou em boa parte do país, mas outros vírus respiratórios continuam ativos, e é por isso que tanta gente segue adoecendo.
Gripe é a mesma coisa que influenza?
Sim. “Gripe” é o nome popular da infecção causada pelo vírus influenza. No dia a dia, porém, as pessoas costumam chamar de “gripe” qualquer quadro de nariz entupido e tosse, o que gera confusão. Do ponto de vista médico, gripe é apenas a doença causada pelo influenza. Os demais quadros virais leves das vias aéreas costumam ser chamados de resfriado ou síndrome gripal.
Os tipos e subtipos do influenza
O vírus influenza que causa doença em humanos é dividido principalmente em dois tipos:
- Influenza A: é o tipo mais variável e o responsável pelas grandes epidemias e pandemias. Ele é classificado em subtipos de acordo com duas proteínas da sua superfície, chamadas hemaglutinina (H) e neuraminidase (N), que funcionam como as “chaves” que o vírus usa para entrar e sair das células. Os subtipos que circulam hoje entre pessoas são o A(H1N1), o mesmo da pandemia de 2009, e o A(H3N2), que costuma causar temporadas mais pesadas em idosos. Existem ainda subtipos que circulam em aves, como o H5N1 (a “gripe aviária”), que raramente infectam humanos, mas são vigiados de perto pelas autoridades de saúde.
- Influenza B: circula apenas entre humanos e não tem subtipos, mas sim linhagens. Atualmente circula a linhagem Victoria. Costuma causar quadros um pouco mais leves em adultos, mas pode ser importante em crianças e adolescentes, e às vezes gera ondas de casos fora da época tradicional, como aconteceu neste ano em alguns estados.
O influenza muda um pouco a cada ano (os cientistas chamam isso de “deriva antigênica”, que são pequenas alterações nas proteínas da superfície do vírus). É por isso que a vacina da gripe precisa ser tomada todos os anos: ela é atualizada para acompanhar as versões do vírus que estão circulando.
Mito ou verdade: as dúvidas mais comuns
“Gripe e resfriado são a mesma coisa”
Mito. Os dois são infecções virais, mas têm causas e intensidades diferentes:
- Resfriado: causado principalmente pelo rinovírus, mas também por outros vírus. Começa aos poucos, com coriza, espirros, nariz entupido e dor de garganta. Febre, quando aparece, é baixa. A pessoa costuma conseguir manter a rotina.
- Gripe (influenza): começa de forma súbita, com febre alta, calafrios, dor no corpo intensa, dor de cabeça, cansaço marcante e tosse seca. É comum a pessoa “cair de cama” por alguns dias. Tem mais risco de complicações, como pneumonia, principalmente em idosos, gestantes e pessoas com doenças crônicas.
Na prática, os sintomas se sobrepõem bastante, e só um exame laboratorial (como o teste de swab nasal) confirma qual vírus está envolvido.
“Gripe forte precisa de antibiótico”
Mito. Antibióticos combatem bactérias e não têm nenhum efeito sobre vírus. Usá-los numa gripe ou num resfriado não acelera a recuperação, pode causar efeitos colaterais (como diarreia e alergias) e contribui para a resistência bacteriana, um problema sério de saúde pública em que as bactérias deixam de responder aos remédios.
O antibiótico só entra em cena quando o médico identifica uma infecção bacteriana associada, como uma pneumonia bacteriana ou uma sinusite bacteriana que surge depois do quadro viral. Um sinal de alerta para isso é quando a pessoa começa a melhorar e, depois de alguns dias, volta a ter febre ou piora da tosse e da falta de ar. Essa avaliação deve ser feita por um profissional, nunca por conta própria.
“Todo mundo com gripe deve tomar Tamiflu”
Mito. O Tamiflu (nome comercial do oseltamivir) é um antiviral específico contra o influenza. Ele não age contra rinovírus, VSR, Covid-19 ou outros vírus. Segundo os protocolos do Ministério da Saúde, ele é indicado principalmente para:
- pessoas com síndrome respiratória grave (falta de ar, queda da oxigenação, necessidade de internação);
- pessoas com fatores de risco para complicações, como idosos a partir de 60 anos, gestantes e puérperas, crianças pequenas, pessoas com doenças crônicas do pulmão (como asma e DPOC), do coração, dos rins, diabetes, obesidade importante ou imunidade baixa.
Nesses grupos, o ideal é começar o mais cedo possível, de preferência nas primeiras 48 horas de sintomas. Para um adulto jovem, saudável e com quadro leve, o uso não é rotineiro e fica a critério da avaliação médica: o benefício costuma ser pequeno (encurta os sintomas em cerca de um dia) e o remédio pode causar náuseas e vômitos.
“A vacina da gripe dá gripe”
Mito. A vacina disponível no Brasil é feita com vírus inativado ou com partes dele, incapazes de causar a doença. Algumas pessoas sentem dor no braço ou mal-estar leve por um ou dois dias, o que é uma reação esperada do sistema de defesa. Se a pessoa ficar resfriada logo depois da vacina, provavelmente pegou outro vírus, como o rinovírus, contra o qual a vacina da gripe não protege.
Outros vírus importantes em adultos
Rinovírus
É o principal causador do resfriado comum e, como mostram os dados da Fiocruz, o vírus mais encontrado atualmente nos casos de SRAG no país. Em adultos saudáveis, costuma ser leve. Mas, em quem tem asma ou DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica, comum em fumantes e ex-fumantes), o rinovírus é um dos principais gatilhos de crises, com chiado no peito e falta de ar. Não existe vacina nem antiviral específico.
Vírus sincicial respiratório (VSR)
Muito conhecido por causar bronquiolite em bebês, o VSR também é importante em adultos, especialmente em idosos e pessoas com doenças do coração ou do pulmão, nos quais pode causar pneumonia e internação. Hoje já existem vacinas contra o VSR para adultos a partir de 60 anos (disponíveis na rede privada) e para gestantes, que protegem o bebê nos primeiros meses de vida e estão disponíveis no SUS.
Metapneumovírus
Parecido com o VSR, causa desde resfriados até pneumonias. Está em alta neste momento em alguns estados, principalmente entre crianças, e também pode descompensar idosos e pacientes com doenças pulmonares.
Sars-CoV-2 (Covid-19)
Continua circulando e, segundo o InfoGripe, voltou a mostrar sinal de aumento, ainda em nível baixo. A vacinação atualizada continua recomendada, especialmente para idosos e grupos prioritários.
Quando procurar atendimento
A maioria das infecções respiratórias virais melhora sozinha em uma a duas semanas, com repouso, hidratação e alívio dos sintomas. Procure avaliação médica, porém, se houver:
- falta de ar ou respiração rápida;
- dor no peito;
- lábios ou pontas dos dedos arroxeados;
- febre alta que dura mais de três dias ou que volta depois de melhorar;
- confusão mental ou sonolência excessiva, principalmente em idosos;
- piora de doenças crônicas, como crises de asma ou DPOC que não respondem às medicações habituais.
Pessoas dos grupos de risco devem procurar atendimento logo no início dos sintomas, porque o tratamento precoce faz diferença.
Como se proteger
- Mantenha em dia as vacinas da gripe (anual), da Covid-19 e, quando indicada, do VSR.
- Lave as mãos com frequência ou use álcool em gel.
- Mantenha os ambientes ventilados.
- Se estiver com sintomas, evite contato próximo com idosos, bebês e pessoas com doenças crônicas, e considere usar máscara.
- Não se automedique, principalmente com antibióticos.
Agende sua avaliação
Se você está com sintomas respiratórios que não melhoram, tem asma, DPOC ou outra doença pulmonar e teve uma piora, ou quer orientação sobre vacinas respiratórias, o Dr. André Lassance é pneumologista em Copacabana, Rio de Janeiro, e pode fazer uma avaliação completa do seu caso.
Agende sua consulta pelo WhatsApp.
Fonte dos dados epidemiológicos: Boletim InfoGripe/Fiocruz, semana epidemiológica 39 de 2026 (divulgado em 8 de outubro de 2026).